Seu Eneu e Dona Maria são o casal mais idoso daquelas paragens. Foram eles que narraram a história de Pedro Napoleão, um filho de imigrantes italianos com nome de imperador que chegou por lá ainda antes das madeireiras. Foi quem levou para a Varginha uma tafona – duas pedras enormes colocadas uma sobre a outra que servem para moer milho, centeio, trigo. Tecnologia. Antes disso, era bem mais difícil comer por lá, como conta Dona Maria.

“Nóis socava milho no pilão pá faze canjica, faze farinha, quirera. Daí, quando esse Napoleão veio, a minha mãe disse assim prum tal de Chico Carro ‘Cumpádi Chico vem uns taliano lá de baixo, e não é que ele vai bota uma tafona pá moe milho pra nóis? Pra nóis tê farinha, cumpadre?’”

Estupenda na arte de narrar, começa a brincar com as vozes: nas falas da mãe ela usa um registro agudo e nas do cumpadre ela fala grosso. É uma mulher que ostenta sobre sua cabeça uma bela nuvem de cabelos brancos, mas adora contar histórias como uma criança. E é como uma criança que vai contando.

 

Dona Maria não deve saber que seus netos também usam arremedá a avó, isso não ficou no passado. Bota uma voz fininha e continua:

“Meu cumpadre diz que ainda em mês de maio, vai tá pronta”, faz a voz grave de novo “Mas ainda em mês de maio? Nóis menina, mais rabicha, saímo rindo e essa mãe pegava nóis de laço."

Se ri toda, ela vive entre momentos de riso e de choro. Por trás da sua graça no contar, fala da chegada de uma ferramenta – objeto que interferiu na vida e na dieta dos poucos que viviam por ali. Esse homem que chegava trazia algo que ia ajudar a matar fome da família de Dona Maria, treze pessoas debaixo do mesmo teto, e de muitas outras, também numerosas, que conviviam com a fome tal fosse sombra deles. Ela sai daquele registro faceiro de contadora de histórias e continua

“Daí fizero essa tafona. Ui, que delícia! A gente pegava um saco de milho e ia lá moe, vinha com aquela farinha mais boa! Nóis fazia polenta, fazia cuscuz, fazia pão de milho: matava a fome. Minha mãe fazia um bolo frito assim num’a panela de chão, aqueles bolo de farinha de milho frito. Que bão que ficava! Bão, bão, bão que nossa! Mato tanta fome.”

Dona Maria

O italiano chegou lá antes de existir ponte, antes de as madeireiras descobrirem ouro no tronco das araucárias. Abriu a estrada à picaretas para poder passar seu jipe, antes só havia um carreiro de mulas. Trouxe a família e tudo que ele achava que um lugar precisava para ser comunidade: igreja, escola, cemitério e festas. Uma parte das terras compradas doou para a construção da igreja católica, do lado instalou-se o cemitério e o salão de festas; mais adiante colocou-se a primeira, e única, escolinha rural da Varginha. Casou os filhos ali, e conseguiu ver boa parte dos netos antes de viver um fatídico dia de festa.